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Luiz Alberto Machado

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BÁRBARA LIA

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A última chuva de Bárbara Lia

 

Amar é ferir-se em lâminas sollasidoremifa” (Bárbara Lia)

 

Luiz Alberto Machado

 

Bárbara Lia é uma dessas poetas que a gente se apaixona logo de cara. Basta ler um verso seu e logo tudo vira fascinação: “(...) até a solidão se esconde em minhas entranhas”.

 

Antes, porém, é preciso saber que ela é paranaense, professora de História e Geografia, poeta de verdade que já publicou os livros “O sorriso de Leonardo” (2004), “Noir” (2006), “O sal das rosas” (2006) e “A última chuva” (2007).

 

Sobre “O sorriso de Leonardo”, o poeta e artista plástico português, Fernando Aguiar, falou: “A poesia de Bárbara Lia junta um lirismo muito feminino à realidade que todos os dias bate à porta dos seus olhos. Poética dos homens, da terra, mas também dos sonhos onde ´Para quem dorme a chuva tem a magia do canto das sereias`”.

 

Sobre “Noir”, escreveu o arqueólogo e poeta português, Luis Serguilha: “(...) Bárbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silencia e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser. Bárbara diz ´que é a palavra`, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. (...) Noir procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa ´que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta`”.

 

Sobre “O sal das rosas”, diz o poeta Márcio Davie Claudino: “(...) Neste “O sal das rosas” ela os apresenta, como se vê, na maioria dos poemas, seja através do riso dos filhos, dos amores e dores, ou do seu constante exercício de pensar e reescrever o mundo de suas leituras e diálogos, indissociáveis, de todo modo, de suas identificações ideológicas, passionais e de sua busca constante pelo ideal humanista”.

 

Agora ela traz “A última chuva”, recém-lançado pela coleção ME18 das Mulheres Emergentes Edições Alternativas. E logo de cara: “Tristessa”.

 

Ame quem te ama e conheça o inferno

Fogo a fogo no porão do medo

Fogo a fogo no cabelo da Medusa

Atiçando cobras

Atiçando demos.

Ame quem te ama e conheça a dor

Amputar pernas braços sexo e coração.

Ame quem te ama

Nesta luta cega

Boitatás no milharal

Não sobra espiga sobre espiga

E o espantalho, mudo, tira o chapéu

E dança triste no chão de palhas.

Ame quem te ama e conheça o inferno

Dois sustos travestidos de sons

Querendo narrar o que o humano não narra

Escrevendo em aramaico o avesso do vivido....

Ame quem te ama

E se arrependa de viver rezando pelo amor.

Ame quem te ama

E descubra

A agulha fina e gelada do olhar

O rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca

O que é não sentir o corpo do outro

Cópula de luz.

O que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso

E a alma livre pluma de algodão te levando

Onde não quer

Onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos...

 

Este poema é a recepção. Se você abriu a porta, entre. Prossiga e veja do que esta poeta é capaz em “Os loucos que eu amo”, “Um tango com Deus”, “Asas de Nietzsche” e o encantador “Chá para as borboletas”:

 

 

Janela – espelho meu.

Fragrância de almíscar selvagem

Me violenta.

Jovem com juba desgrenhada.

Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel

Cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra

Dos eucaliptos, recanto secreto

Onde eu servia chá às borboletas.

 

Também em “As rosas mortas a me contemplar”:

 

Quando eu era menina

Tinha medo da cortina

Que lembrava

O quintal do mal.

Era adornada de pecado,

Rosas em gritos menstruais

Sangrando folhas descomunais.

Durante o dia, eram bizarras;

Na noite me assombravam

Formando rostos

Na contra luz da lua azougue.

Eu farfalhava no colchão,

Cerrava os olhos

Encolhia-me em posição fetal.

Nunca disse à minha mãe

(que trocaria a cortina – para minha paz)

Nasci de frente para os fantasmas.

Contemplo.

Não expulso.

Não acendo a lâmpada.

Enfrento.

No quarto escuro

(agora da alma)

os mil rostos

de rosas mortas

a me contemplar.

 

Assim é a poesia de Bárbara Lia. E sobre ela escreve o poeta Márcio Davie Claudino: “(...) O projeto de Bárbara Lia continua, ainda que, na contramão das coisas não-poesia, das condições não-pertencimento, contrapondo-se justamente pelo viés do autêntico e do verdadeiro, do que mais lhe pertence”.

 

Assim é a poesia de Bárbara Lia: aquele encantamento de se poder visualizar a alma feminina na maravilha da poesia mulher: seu olhar, sua vida, alvos e errâncias, coisas e seres, tudo no redemoinho lírico de sua língua fêmea. Parabéns, Bárbara.

 

PS: e não deixe de visitar o blog http://chaparaasborboletas.blogspot.com/

 

 


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